Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

"Nunca, nunca te abandonarei, nem te negarei"

 

Enquanto o médico me transmitia que tinha um cancro e que tinha de ser operado eu desliguei. A minha mulher, que me acompanhava, haveria de prestar atenção e depois dizia-me exactamente o que se passava e o que era suposto fazermos. Sim porque uma doença destas não acontece só ao pai, afecta toda a familia. Passa a ser nossa e não minha.

 

Mas enquanto desligava pensava como nós não éramos relevantes. Conseguíamos passar pela vida e não ser relevantes para ninguém. Passar por vezes 80 anos e não tocarmos a vida de ninguém. Não falo dos amigos e do convívio que temos com eles. Isso é importante para eles mas não lhes muda a vida. Falo de ser relevante para alguém, ou alguma coisa.

 

E com os meus botões continuava a falar com Nossa Senhora.

Se Ela permitisse que eu durasse ainda alguns anos eu tinha o compromisso de ser relevante para alguém, por exemplo uma criança por ano. Não é muito mas é importante para essa criança.

Não se tratava de uma troca, nem sequer de uma promessa, mas sim de uma constatação. Se por acaso continuasse a viver, e enquanto isso sucedesse haveria de fazer a diferença, pequena que fosse, na vida de alguém.

 

A consulta terminou, chorámos o que tínhamos para chorar e voltámos para casa. Desde a primeira hora que única situação que estava implicita era darmos sempre a normalidade  possível à nossa familia. Por isso nesse dia a minha mulher foi ao supermercado. Como a empregada já tinha saído fiquei sozinho em casa. Sentei-me no sofá e preparava-me para pensar na vida quando o telefone fixo tocou. Pensei de mim para mim "que chatice tenho que atender a sogra ou a mãe" porque só elas continuam a ligar para o telefone fixo. Contrariado sai do sofá e atendi o telefone. Do outro lado uma voz:

- Sr. António? - Sim, respondi desconfiado.

- Boa tarde, daqui fala da Associação para as crianças deficientes.

- Como? obriguei a mulher a repetir aquilo que não estava a acreditar estivesse a acontecer. Confesso que estava até um pouco irritado. Como se fosse possível alguém escutar os meus pensamentos.

- E o que é que a senhora pretende? perguntei.

- Temos uma criança doente que semanalmente tem que se deslocar e estamos a fazer um peditório, respondeu ela.

- E porque me telefonou?

- Porque estamos a falar para pessoas da sua localidade.

 - E como é suposto eu dar-lhe o dinheiro, questionei desconfiado. 

- Nós mandamos uma proposta por correio, o senhor analisa e pesquisa e só dá o que quiser

- Então mande lá o papel, conclui muito zangado e desliguei o telefone.

 

Verdade ou mentira, porque o resto da historia guardarei para mim, o que é certo é que nesse dia alguém quis falar comigo. E fe-lo da forma mais directa possível.

Não consigo imaginar forma mais directa de comunicação.

Quem me conhece sabe que, embora católico, não pertenço a nenhuma seita. Não conto habitualmente histórias de santos nem alinho com pieguices. mas também não acredito com facilidade em coincidências. 

E nesse dia alguém falou muito directo comigo. Disso não me posso esquecer. 

 

 

 



publicado por baldino às 22:24 | link do post | comentar

3 comentários:
De marta a 12 de Novembro de 2011 às 01:00
Não tenho palavras. Ou então até tenho mas não as consigo escrever aqui. És único!


De Patrícia a 18 de Dezembro de 2011 às 22:01
Não foi meu chefe durante muito tempo, mas foi meu chefe durante uma época muito complicada da minha vida, em que me vi obrigada a faltar muito ao trabalho por motivos de saúde do meu filho Pedro. Nunca se chateou com isso. Nunca fez nenhum reparo. Com a sua ajuda abracei um sonho de vida que era trabalhar no meio museológico. Não mudou a minha vida, mas ajudou. às vezes não precisamos de passar cheques para associações (e eu sei que elas precisam) às vezes basta olharmos para quem temos à nossa volta. E isso chefe eu acho que você sempre fez.


De baldino a 19 de Dezembro de 2011 às 10:38
Beijinho grande para si e para o Pedro. Tudo de bom neste Natal e Ano Novo.


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