Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

 Cinco da manhã. O irritante despertador não pára de tocar. Levanto-me a custo. Nada de surpreendente. Todos os dias me levanto a custo. Faço os poucos metros que separam a cama da casa de banho, arrasto-me mas chego.

A água, o chuveiro, a luz, tudo automaticamente e lá saio de casa meia hora depois. Ainda consigo abrir o frigorifico e engolir um copo de leite.

 

Chego ao ponto de encontro muito antes dos outros todos. Sempre foi assim. Demasiado pontual para quem vive por cá. Esperar é preferível a fazer esperar. Esperar é o que tenho feito toda a vida. Um a  um lá vão chegando os meus colegas. Enchemos a carrinha e vamos.

O condutor atravessa o que parecem ser as mesmas ruas e avenidas, nem saberia dizer por onde andamos. Andamos. 

 

Deixei de conduzir há alguns anos. Primeiro porque sustentar um carro não é para todos e depois porque já nem saberia aonde ir. Todas as novas ruas transformaram Lisboa numa Nova Lisboa que desconheço, ignoro, abandono.

Ir implica sempre saber aonde ir e saber voltar. Pelo menos para mim. Demasiadas variáveis para um velho como eu, velho e cansado. E foi com estes pensamentos que chegámos. 

 

Como autómatos ouvimos, já de pé, as instruções do condutor que é em simultâneo uma espécie de capataz. Hoje calhou-nos um centro comercial. Todos de verde e em fila indiana lá vamos. Temos 3 horas, o centro só abre às nove. 

 

Gosto quando o trabalho se divide numa casa de banho por cabeça. Dá mais para perceber qual o trabalho de cada um. Nas próximas 3 horas aquele é o meu reino. Longe do meu bairro com nome de princesa e da minha casa pequenina tenho agora 3 horas só para mim num amplo espaço limpo e arejado. 

 

No final, depois de tudo limpo, ainda tenho tempo para estender o guardanapo e tomar o pequeno almoço que trouxe alojado na lancheira. Ás vezes demoro-me mais um pouco e já entra o primeiro "cliente" , utente? Vai lavar as mãos e olha-me através do espelho. Única maneira que tenho de ser visto. Deve achar esquisito ver alguém ali naquele local a tomar o pequeno almoço mas não deve pensar muito tempo sobre isso. Cada um com os seus problemas.

 

Voltamos a encontrar-nos junto à carrinha e partimos para um dos milhares de escritórios da cidade. Lá me calha mais uma casa de banho novinha em folha. Fácil.

São agora 11 da manhã e apesar do sinal "Em Limpeza" q coloco à entrada os mais aflitos entram e saiem sem me verem. 

 

Logo no inicio da actividade, há quase 40 anos, ainda fiz vários testes à capacidade de visão dos "utentes" mas cedo percebi que me tinha tornado invisivel. Nunca percebi exactamente quando isso aconteceu mas foi de repente. Mais tarde descobri que apenas era visivel através do espelho. Quando encarado de frente não provoco qualquer reacção. Não há a minima dúvida que sou invisivel. Ninguém fala comigo e eu retribuo não falando com ninguém.

 

Excepcionalmente esboço um sorriso a uma criança, pois é verdade, as crianças também me podem ver. E existe sempre um ou outro "utente", muito a espaços no tempo, que me diz Boa tarde ou Bom dia, talvez porque tenha um coração de criança.

 

Nunca entendi nem quis explicar.

 

Habituei-me a viver como o homem invisivel. Aquele a que ninguém fala nem olha a não ser através do espelho. Basta vestir a farda verde, vermelha ou amarela e quem entra onde estou não me vê, não me fala, não olha sequer para mim.

Com os meus colegas de trabalho sei que se passa exactamente o mesmo. Mesmo as colegas mulheres que trabalham em casas de banho de homens têm o condão de desaparecer. Já o testámos inumeras vezes.  Eles fazem as suas necessidades sem as ver. 

 

Percebi q era da farda tarde demais pois passei vários anos angustiado a pensar que eram as pessoas que eram pouco humanas. 

 

Hoje jantei com o meu filho, estou tão desabituado a ser visto que fico meio sem jeito sem saber o que dizer. Mas felizmente o meu filho sempre me viu da mesma forma com ou sem farda.

 

Ele nunca percebeu que sou um Super Heroi que tem a capacidade de desaparecer quando veste a farda de trabalho.  Ainda bem. Não sei se ia gostar de saber que o pai é o homem invisivel. Todos os Super Herois que conheço têm esta face oculta que o ajuda a fazer o Bem.

 

E o meu trabalho enquanto Homem Invisivel é fazer do Mundo um local mais limpo e por isso mais seguro para todos os utentes do planeta. 

 

 



publicado por baldino às 22:58 | link do post | comentar

5 comentários:
De Fernando Figueiredo a 5 de Novembro de 2009 às 17:12
Caro Baldino. Muito bom... mesmo muito bom. Venha de lá esse livro. Abraço. Fernando Figueiredo


De baldino a 5 de Novembro de 2009 às 17:20
Obrigado meu caro.Muito generoso. Pois vou publicá-los primeiro aqui à medida que vou tendo disponibilidade porque estão todos escritos à mão :) e depois passamos isto a papelo ou não. abraço


De celso a 5 de Novembro de 2009 às 23:06
wow!


De Luiza a 9 de Novembro de 2009 às 10:05
Que desperdício tanto tempo essa veia artística contida!!! Dê-lhe gás !!!
1 Bj grande,


De mrds a 29 de Novembro de 2009 às 13:38
mais...queremos mais baldino.


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