Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O marido, o Sr. Baptista, estava em África e todos os dias lhe ligava às 17 horas.

Durante muitos anos, demasiados anos, Dona Zita se preparou para esse ritual diário. Arranjava-se como se fosse encontrar-se pessoalmente com ele. Roupa interior, saiote rendado. Os melhores vestidos dos armazéns do Chiado. Pó de arroz e batôn. 

 

Sentava-se cinco minutos antes na cadeira que tinham no hall, ao lado do telefone, e esperava pelo bater das 17 horas. Durante muitos anos foi isto que aconteceu, demasiados anos. Quando o telefone tocava Dona Zita estava sempre lá. Ali estava pronta para falar com o seu marido que estava em África. 

 

E falavam de quase tudo. Dos  filhos, dos vizinhos, da família dele e dela, dos preços que estavam pela hora da morte. E ele perguntava como ela estava vestida. E ela descrevia tudo com pormenor. E ele adorava, ofegantes despediam-se com saudades.

 

Dona Zita desligava o telefone e ali ficava então parada, imóvel, sentada. Por vezes até anoitecer (até não haver luz lá fora). Desejava então tornar-se Icaro e voar até África. Sobrevoava o oceano e chegava junto do seu homem. Passava horas naquilo. A matutar em tudo o que ele lhe contava. A sobrevoar as praias da Ilha, a baia de Luanda, a Restinga.

 

Fazia compras na Baixa, junto à Lello. Rezava na Sagrada Familia. O gelado era no Baleizão e o marisco sempre na Amazonas. Via futebol com ele nos Coqueiros e não dispensava os relatos de futebol da Metrópole ao Domingo. Vivia no Prenda e tinham um Land Rover onde iam até à Barra do Cuanza e ao Morro dos Veados. O mais longe que se aventurou foi ao Dondo. Viveu com ele os escândalos como o da Laurinda e dançou merengue e rebita até de madrugada. Farras sem fim... 

 

Depois Dona Zita levantava-se, tirava os colares e os brincos. Despia a roupa de sair, lavava a cara para aliviar do pó de arroz, voltava a vestir a bata e punha o jantar ao lume. 

 

Assim foi durante muitos anos. demasiados anos.

 

Um dia o telefone deixou de tocar mas Dona Zita continuou a vestir-se como antigamente,  como nos velhos tempos, e a voar como Icaro. Tudo se passava como antes só que o telefone não tocava.

 

Depois continuou a vestir-se mas deixou de se sentar. Alterou um pouco o ritmo. Já não se vestia só à hora do Baptista mas logo de manhã.

Ganhou-lhe o gosto e saia assim à rua, bem vestida e bem disposta. A vida seguiu o seu rumo até que um dia deixou de esperar pelo toque do telefone. Deixou de esperar pelo Baptista.

 

Do marido nunca mais soube coisa nenhuma até à poucos dias atrás. Está mal de saúde, voltou de África, trouxe uma mulher e filhos mulatos.

As vizinhas vieram logo contar-lhe mas a Zita nem quis saber. Não quer voltar a ver o Baptista.

 

Agora vai ao café a ao cinema com as amigas. Deixou a Baixa de Luanda, veste-se na Zara e veste-se para ela, nunca mais o fez para homem nenhum. Seguiu a sua vida de Super Mulher, uma vida interior onde aprendeu a viajar para onde quer, sem horas marcadas, sem esperar por ninguém. O seu Icaro de agora libertou-se das amarras do dia a dia e gosta de voar sempre mais perto do Sol. 

 

É aquela Super Mulher que vemos todos os dias. Está nas paragens dos autocarros, nos cafés, nos restaurantes.

 

Como todo o Super Herói a nossa heroína ama a vida , a sua vida. Aprendeu à sua custa que a vida não se compadece com quem espera sentado, com quem não vive e apenas imagina a vida, com quem vive a vida dos outros. 

 

Mike Esparza



publicado por baldino às 23:25 | link do post | comentar

1 comentário:
De mrds a 29 de Novembro de 2009 às 13:44
To capture the rhythm of a day and a day in the life and the life of a day. Write more Balduino - king of all the Belgium´s... write MORE


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