Domingo, 8 de Novembro de 2009

A primeira coisa de que me lembro é do cheiro a terra vermelha a entrar-me pelas narinas até ao fundo do meu ser. A humidade junto com a poeira transformavam a terra em barro no tempo das chuvas e foi desse barro que nasci.

 

Maria José a Maria Rapaz.

 

Também me recordo da chuva. "Cai o céu" é uma expressão muito familiar nos trópicos. Chuva abundante, espessa quase cremosa.  Chuva quente, larga, quase acolhedora.

 

Chovia durante dias com alguns intervalos. Os meus pais eram do Porto. Partiram nos anos 60 em busca de uma vida melhor. Os salários na metrópole eram miseráveis nessa altura. 

 

E quando a chuva se apagava lembro-me dos gafanhotos e Louva a Deus por tudo o que era lugar, sobretudo à noite nas montras das lojas, atraídos pelas luzes. Com cuidado aproximava-me e e agarrava-os pelas pernas. Nunca gostei de as arrancar mas divertia-me a vê-los presos, amarrados, pensando provavelmente que não tinham saída. Mas acabava por os soltar. Por estas e por outras é que me chamavam de Maria Rapaz em vez de Maria José que era o meu nome. 

 

A casa onde "nasci" é muito fácil de explicar. Tinha apenas uma divisão (hoje nalguns lugares da cidade chamar-lhe-iam um open space ou Loft). Constitui ainda hoje para mim um mistério como ainda assim parecia tudo tão no lugar e tão arrumado. Nada de "acampamentos". Dois sofás à entrada do lado direito onde Dona Mimi me questionava os deveres da escola. Um armário do mesmo lado para segurar "o quarto" onde dormia com a minha irmã, numa gaveta que saia da cama dela. Na "varanda" que servia de sala de jantar  instalara-se um frigorifico enorme, verde esverdeado. 

Em frente à porta de entrada num corredor separado por uma cortina de plástico fizemos primeiro a cozinha e a seguir a casa de banho com a respectiva banheira. Et Voilá!!!

 

Também me lembro dos sabores adocicados a fruta dos pomares, dos retratos do meu pai espalhados pela casa e do cheiro a capim. Do Natal com calor, dos porcos que eram pretos. 

 

E um dia ouvi falar da "Revolução" que tinha havido na Metrópole. Num dia em que não houve aulas ouvimos Pink Floyd e dei o meu primeiro beijo. Tinha então 13 anos e deixei de ser a Maria Rapaz.

Os sons são o mais dificil dos sentidos reproduziveis pela memória. Mas ainda me lembro do barulho dos martelos a fazer caixotes para trazer com os últimos haveres. O resto da história não costumo recordar.

"Retornei" com a minha mãe e irmã para o Porto onde nunca tinha estado. Vivemos em hoteis de 3 estrelas sustentados por uma instituição de nome IARN . E tinha pouco mais de 15 anos quando me entreguei ao primeiro homem. A minha mãe e irmã passaram a depender desses dinheiros para sobreviver. 

 

Acolheram-me numa "vivenda" onde a Tia Amélia trata do que precisamos 24 horas por dia. Só temos que estar disponíveis cada vez que ela nos chama. Não estranho muito.

A Vivenda é pouco maior que a casa de Luanda. Também está sempre tudo no lugar e nada de acampamentos. A diferença é mesmo o numero de quartos. A vivenda não é um open space. O Natal é gelado e os porcos aqui são brancos.

Óbvio que os cheiros e os sabores não são iguais.

 

As vezes sinto que sou eu o gafanhoto que alguém pega pelas coxas e receio que um dia mas arranquem tal a força com que alguns o fazem. O barulho dos martelos foi substituído pelo barulho das camas. 

Mas no geral tudo se mantém na mesma. Por vezes receio voltar ao barro de onde nasci, afundar-me na lama que lhe deu origem. Mas logo me agarro à vida e às recordações. Sinto saudades da chuva, a que lava o corpo e a alma. 

 

Visto umas meias compridas , uns sapatos de salto alto , uma capa vermelha e uma máscara negra. Sou uma das mais solicitadas. Já não sei muito bem como isso aconteceu mas a determinada altura alguém me começou a chamar de Batman e  o nome nunca mais me abandonou. Com as minhas outras colegas fazemos uma constelação de estrelas: temos a branca de neve, a mulher aranha, a amazona e a Mafaldinha. 

 

Deixei de ser a Maria José e a Maria Rapaz. Sou um Super Heroi, o meu nome é Batman e a nossa "Vivenda" é o esconderijo perfeito. Quando não estou ocupada a fazer o bem aos homens que frequentam a Vivenda vou as compras com a minha irmã, que sempre mantive longe deste mundo, e visitamos a minha mãe no Lar aonde teve que recolher.

 

Nenhuma delas conhece a minha identidade secreta. Pensam que sou secretária de um homem importante. Afinal todos os Super Herois têm uma vida normal quando não estão a salvar o Mundo. 



publicado por baldino às 15:15 | link do post | comentar

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