Domingo, 29 de Novembro de 2009

 Mais do que nunca compreendemos que a cultura é precisamente o que resta quando tudo foi esquecido. (...) O livro é como a colher, o martelo, a roda ou o cinzel. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. (...) a escrita é o prolongamento da mão e, nesse sentido, ela é quase biológica. Mas as nossas invenções modernas, o cinema, a rádio, a internet não são biológicas. (...)

 

Tudo isto para dizer que não há nada de mais efémero que os suportes duradouros (lembram-se da disquete, do CD-ROM, do DVD?). Assim, continuamos a poder ler um texto impresso há cinco séculos. Mas já não podemos ler, já não podemos visionar uma cassete electrónica ou um CD-ROM com apenas alguns anos.

 

 

E o cinema? Foi a partir dos anos 20 ou 30 que o cinema se tornou na Europa a Sétima Arte. Desde então torna-se válido conservar obras que pertencem agora À história da arte. Razão pela qual se criam as primeiras Cinematecas inicialmente na Russia e depois em França. Mas do ponto de vista americano o cinema não é uma arte, ele é ainda hoje um produto renovável. A cinemateca americana, veja-se bem, foi criada nos anos 70! De igual modo a primeira escola de cinema no mundo foi russa. Devemo-la a Einstein (...)

Para não falar na televisão. Conservar os arquivos de televisão parecia de inicio absurdo. (..) não aconteceu aos livros o que aconteceu aos filmes.

 

O culto da página escrita e mais tarde do livro é tão antigo quanto a escrita. (..) O sec XX é o primeiro século a deixar imagens em movimento de si mesmo, da sua história, e sons registados (...) Curioso: não dispomos de nenhum som do passado. Mas podemos imaginar, sem dúvida, que o canto dos pássaros era o mesmo, o murmurar dos regatos...

 

Buda também não escreveu nada. Mas, ao contrário de Jesus, falou durante muito mais tempo. Admite-se que Jesus teve no máximo dois ou três anos de actividade. Buda, mesmo sem escrever, ensinou pelo menos durante trinta e cinco anos. O Sermão de Benares contém as primeiras palavras de Buda, texto que contém as famosas "Quatro Nobres Verdades", representa uma folha, não mais do que isso. No inicio, o budismo resume-se a uma folha. (...)

 

Um incêndio deflagra em sua casa, sabe que obras salvaria em primeiro lugar? Digamos que talvez pegasse em Perrgrinatio in Terram Sanctam, de Bernhard von Breydenbach, Speir, Drach, de 1490 (...) Pela minha parte, pegaria sem dúvida num manuscrito de Alfred Jarry, num de André Breton e num livro de Lewis Carroll que contém uma carta dele. (..)

 

Você e eu nascemos num século que inventou pela primeira vez novas linguagens. Se as nossas conversas se desenrolassem cento e vinte anos mais cedo, apenas poderíamos evocar o teatro e o livro. A rádio, o cinema, o registo de voz e do som, a televisão, as imagens de sintese, a banda desenhada não existiram. 

 

A Obsessão do Fogo, Umberto Eco e Jean-Claude Carriére, Conversas conduzidas por Jean-Philippe de Tonnac, Difel 2009



publicado por baldino às 21:49 | link do post | comentar

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