Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

 Não se lembra muito bem como era antes disso. A pesca sempre fez parte da sua vida. Sentava-se no banco de verga ao lado do seu avô e ali ficavam os dois durante horas pela noite fora.

A sua especialidade era colocar o anzol. Não era uma anzol qualquer, era daqueles á seria, sem buraco. Depois vinha o isco. Uma boa minhoca ainda viva  entrava ao de leve pela ponta do anzol. Nunca lhe fez confusão tocar nos bichos. As mãos ásperas depois de limpas naqueles panos sujos que o avô levava na mala. A mala da pesca era uma coisa fantástica, tinha de tudo um pouco: anzóis, chumbos, chumbadas, linhas, panos, bocados de isco, bóias, canivetes, tesouras... sei lá, o avô levava o mundo todo dentro da mala da pesca.

 

 

Ela, Maria do Rosário, era a grande companhia do avô na pesca. Adorava o cheiro do peixe. de sentir a linha vibrar, a cana a dobrar e a adrenalina a subir. Depois puxar o carreto devagar, muito devagar para não partir a linha. E lá estava o peixe a dançar ao sair da água. Agarrava-o só com a mão direita, abria-lhe a boca com a mão esquerda para lhe tirar o anzol e pronto lá ia mais um para dentro do balde. Nessas alturas sentia o coração nas mãos. uma amalgama de amor, ternura e poder. Ela, o avô e a lua. Os três ali a noite inteira. Conversavam muito. Coisas de pescador. Ele vibrava de orgulho na neta que se encantava com a pesca e com as suas histórias. Chamava-lhe a sua Pequena Sereia.

 

Lembra-se como vibrava antes de ir. Na noite anterior sonhava com a pesca, o avô virava Gepeto e ela, pescava uma baleia enorme.

O avô tentava contrariar toda essa excitação. Dizia-lhe que tínhamos que controlar as nossas emoções. E ela aprendeu depressa. Ao longo da vida sempre foi conhecida por ser fria e controlada. Pouco emotiva. As suas relações nunca foram um sucesso. Sentia um desprezo escondido pelos adultos em geral.

 

Nas suas longas conversas nocturnas o avô também lhe ensinou que os peixes eram mais confiáveis que os homens. Os peixes nunca desiludiam. Desde que fizéssemos tudo sempre como deve ser; bom isco, bom anzol, bom lançamento e uma boa noite e o peixe picava sempre. Quanto aos homens a conversa era outra bem diferente. Podíamos fazer tudo como deve ser que eles arranjavam sempre maneira de nos desiludir. Por isso nunca confiou em demasia. Nunca se entregou inteira a ninguém. Os homens, ao contrário dos peixes, não eram de fiar.

 

O único homem em que sempre confiou foi o seu avô e bastava-lhe escutar o coração bater para lhe vir à memória a sua voz, os seus gestos, o seu cheiro, o calor e a segurança que lhe transmitia. Se um dia no fim da vida lhe pedissem para resumir a sua vida, quem tinha sido e o que fez não tinha duvidas em afirmar que tinha sido uma menina que pescava com o avô.

 

Foi também o avô foi quem lhe ensinou tudo o que sabia sobre peixes desde os mais pequenos aos maiores , dos mais mansos aos mais ferozes. E como os homens tinham semelhanças na sua diversidade, havia piranhas e espadas, palhaços, papagaios, com espinhas, de agua doce e até peixes graúdos.

 

É por essa diversidade que os peixes se tornaram inspiração de grandes obras, obras que o avô não se cansava de citar. Lembrava-se sobretudo  do Sermão de Santo António aos Peixes e O Velho e o Mar. O primeiro, reforçava o avô, era a prova de que os homens não queriam ouvir ninguém e por isso não mereciam confiança, até o Santo se tinha virado para os peixes...

Ao menos os peixes como dizia Santo António nesse sermão têm duas grandes qualidades: ouvem e não falam.

Vós sois o sal da terra. Era assim que se sentia o meu avô, a preservar os bons princípios e a condenar os homens que se deixavam corromper. 

O segundo era o símbolo da luta do homem consigo próprio e com os seus próprios limites. Só na adversidade testamos as nossas reais capacidades era outra das máximas ouvidas nas longas noites de luar. 

 

Para além do mais um peixe era sempre um peixe, desde que nascia até que morria. Um peixe não tinha qualquer pretensão de se vir a tornar um tubarão. Já com os homens todos sabemos que não é assim. Desde que nascem até que morrem nunca estão satisfeitos com o que são. 

 

Depois havia o mar onde vivem os peixes. O mar, dizia o avô, é como Deus, está aqui e em toda a parte. Se estivéssemos sentados do outro lado do Mundo estávamos vendo este mesmo mar, mais transparente, menos azul, mas o mesmo mar: imenso, profundo, omnipresente.

O Mar também nos leva a qualquer lugar. Por isso durante o dia Maria do Rosário aventurava-se no mar, colocava o tubo na boca e lá ia fingindo ser peixe. Tentando perceber como viveria se fosse um peixe. Querendo ser peixe. Sentia-se um peixe colorido daqueles que ninguém pode comer mas que embeleza por onde passa e que vive num mundo de corais.

Ali alcançava a paz, o mar pode ser muito silencioso. E tal como o atleta de alta competição foi treinando o mergulho e a respiração até não precisar mais do tubo e dos óculos. Um dia deitou fora as barbatanas. Começou a nadar de dia e depois passou a nadar à noite. Agora sim sentia-se uma sereia, a pequena sereia do seu avô. Quis contar-lhe a descoberta mas nesse dia o seu avô morreu.

 

Fez então uma tatuagem de um peixe junto ao peito para nunca mais se separar do seu companheiro desses anos fantásticos em que pescava com o seu avô, o seu querido avô. Foi até ao local onde costumavam pescar e mergulhou. Não sabe quanto tempo andou por lá submersa mas decerto que nesse dia teria batido o recorde do mundo de apneia.  

 

Os anos passaram e Maria do Rosário cresceu. Formou-se em medicina e escolheu a pediatria. É hoje uma médica conceituada num Hospital de Lisboa.

Não sabe já quantas crianças salvou, quantas operou, quantas encantou com as suas histórias de pesca, sereias e pescadores.

Para o peixe graúdo, os homens e mulheres q nunca pescaram ela passou a ser a Drª Maria do Rosário, fria, eficiente, profissional. Mas para as crianças suas pacientes ela é a Pequena Sereia e acredita nisso. Não passa um só dia que não mergulhe no mar, que não se entregue à espuma das ondas.

Faça chuva ou faça sol, seja qual for a temperatura do mar, a pequena sereia é já um mito urbano nas praias da linha. Há quem garanta que ja lhe viu as barbatanas e os jornais e as televisões ja quiseram fazer uma entrevista com ela. Mas ela não gosta dos jornais e das noticias. Vive do amor das suas pequenas ninfas que precisam de toda a sua técnica e atenção.

É uma heroína diária, uma técnica qualificada, que vive por ai nos Hospitais do nosso pais lutando pelos direitos das suas crianças.  

 

 

 

 



publicado por baldino às 00:03 | link do post | comentar

1 comentário:
De Filipah13 a 9 de Dezembro de 2009 às 16:16
http://lutarpeloplaneta.blogs.sapo.pt/


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